← Voltar ao acervo de inventáriosSaberes · Comunidade Quilombola de Capivari · Serro · MG

Saber fazer o forno
de barro de Capivari

Conhecer a terra, trabalhar o barro e reconhecer o ponto do fogo: um saber compartilhado entre gerações, ligado às quitandas e à vida comunitária.

Forno de barro arredondado durante a primeira queima, com lenha acesa na abertura frontal
Forno de barro em sua primeira queima. Foto: Felipe Nascimento Ribeiro, 30 de abril de 2025, conforme o inventário.
Pesquisa
Felipe Nascimento Ribeiro
Território
Comunidade Quilombola de Capivari, Serro, Minas Gerais
Registro
Inventário participativo · 28/09 a 05/10/2026
O saber inventariado

Um forno feito de conhecimentos

Na Comunidade Quilombola de Capivari, no município de Serro, fazer o forno de barro envolve conhecer a terra, preparar os materiais, construir a estrutura e acompanhar o aquecimento. A pesquisa de Felipe Nascimento Ribeiro registra esse saber a partir dos relatos de Nanci Ribeiro de Jesus e Leoni Nascimento de Jesus e de fotografias do processo.

O forno está ligado ao preparo de biscoitos, rosquinhas, bolos e outras quitandas. Participa da alimentação das famílias, da produção para a venda e das ocasiões de encontro e partilha, como casamentos e atividades comunitárias.

Segundo a documentação, esse conhecimento é aprendido principalmente pela convivência: observar os mais experientes, ajudar a preparar o barro e acompanhar a construção e o uso do forno. Os materiais e os sinais reconhecidos durante o trabalho fazem parte de uma experiência transmitida entre gerações.

Pessoas e transmissão dos saberes

Aprender com a família e ensinar aos mais novos

Nanci Ribeiro de JesusDetentora do saber de construir e utilizar o forno de barro

Nanci relata que, desde os sete anos, acompanhava a mãe no preparo das quitandas para o sustento da família. Aos quinze, aprendeu a construir fornos utilizando partes de cupinzeiro e cacos de telha. Em sua experiência, as escolhas de materiais estão relacionadas ao tempo de construção e à capacidade de conservar o calor entre as fornadas.

Ela descreve o trabalho realizado sozinha, em família e em grupos reunidos por ocasiões sociais. Para Nanci, a atividade combina o valor cultural das técnicas e das receitas com a alimentação e a economia familiar. Filhos, netos e outras pessoas da comunidade participam da transmissão desses conhecimentos.

Leoni Nascimento de JesusQuitandeira e detentora do saber de fazer o forno

Leoni conta que aprendeu com a mãe, aos dezessete anos, utilizando adobe, partes de cupinzeiro ou cacos de telha. O forno passou a fazer parte do preparo de biscoitos de goma e bolos para o café da manhã e o lanche da família.

Em seu relato, manter esse modo de fazer é também preservar os costumes da mãe e compartilhá-los com os netos. A continuidade depende de que as pessoas mais novas tenham oportunidade de aprender e de praticar.

Materiais e experiência

Terra, telhas e o ponto do fogo

O inventário descreve o uso de argilas branca, vermelha ou amarela, areia, água, cacos de telha e madeira. Os relatos também registram variações com partes de cupinzeiro e adobe. Essas escolhas compõem diferentes experiências de construção dentro da comunidade.

A preparação envolve selecionar a terra e trabalhar o barro até atingir a consistência reconhecida por quem domina o saber. A estrutura é levantada e arredondada, com abertura frontal e suspiros laterais, utilizados no controle da fumaça e da temperatura.

Secagem, primeira queima e acabamento integram o processo documentado. No uso cotidiano, observar o aquecimento, reconhecer o momento de colocar as formas e controlar o calor são conhecimentos aprendidos na prática, junto aos mestres e às mestras.

Trabalho e convivência

A construção também é descrita como ocasião de conversa e de refeições compartilhadas. Café, almoço e alimentos produzidos nos quintais acompanham os encontros. O forno integra, assim, um conjunto de relações entre trabalho, alimentação e solidariedade.

Nanci menciona a presença dos fornos elétricos como uma alternativa em determinadas situações, mas ressalta as diferenças que percebe no sabor e na textura das quitandas. O registro mostra a convivência entre recursos atuais e modos tradicionais de fazer.

Salvaguarda

Continuar fazendo e compartilhando

O inventário destaca que o saber não pertence apenas a uma pessoa: homens e mulheres de Capivari conhecem e praticam diferentes aspectos da construção e do uso dos fornos. Mestres e mestras têm papel central no reconhecimento dos materiais e no acompanhamento das etapas.

Entre os desafios estão a falta de oportunidades para as novas gerações aprenderem, a interrupção da prática e a indisponibilidade dos materiais e espaços necessários. A pesquisa recomenda valorizar quem detém o conhecimento e promover momentos de aprendizagem entre pessoas de diferentes idades.

Registrar histórias, fotografar os processos e manter a participação dos moradores são caminhos apontados para fortalecer a continuidade do saber, respeitando as formas como a própria comunidade o reconhece e transmite.

Registros da pesquisa

Galeria de imagens

Sobre este registro

Ficha técnica

Bem cultural
Saber fazer e uso tradicional do forno de barro
Categoria
Saberes
Território
Comunidade Quilombola de Capivari, Serro, Minas Gerais
Pesquisa
Felipe Nascimento Ribeiro
Pessoas entrevistadas
Nanci Ribeiro de Jesus e Leoni Nascimento de Jesus
Fotografias selecionadas
Felipe Nascimento Ribeiro, Nanci Ribeiro de Jesus e Makicilene Viviane Nascimento Cunha, conforme as legendas do documento
Período da pesquisa
28 de setembro a 5 de outubro de 2026

Fontes deste inventário

  • Inventário Cultural Participativo — Saber fazer o forno de barro na Comunidade Quilombola de Capivari, de Felipe Nascimento Ribeiro, 2026.
  • Ficha da categoria Saberes, com descrição dos materiais, das etapas e da transmissão do conhecimento.
  • Fichas de entrevista com Nanci Ribeiro de Jesus e Leoni Nascimento de Jesus.
  • Fotografias e legendas integrantes do documento da pesquisa.

Apresentação organizada a partir dos registros produzidos na formação do projeto. Os conhecimentos e as experiências são apresentados conforme os relatos da comunidade e poderão receber complementações e revisões.