Um saber à mesa de Serra Azul
Em Serra Azul de Minas, o requeijão moreno faz parte de uma cultura alimentar ligada ao campo, ao aproveitamento do leite e à convivência. A pesquisa de Kelly Nairana Gonçalves Sabino apresenta esse saber por meio do trabalho de Laci Marçal Botelho Silva, conhecida na comunidade como Dona Laci.
O “Requeijão de Laci” reúne ingredientes, experiência e uma receita de família. Seu valor cultural está também nas histórias de quem prepara, nas formas de aprender e nos vínculos construídos ao servir e compartilhar o alimento.
O inventário participativo aproxima a produção artesanal das memórias e do sentimento de pertencimento dos moradores. Cozinhar aparece como uma maneira de manter conhecimentos presentes no cotidiano e de reconhecer as pessoas que os transmitem.
Dona Laci e a memória de família
A pesquisa identifica Dona Laci como uma referência na produção do requeijão artesanal no município. Sua trajetória está ligada à comunidade rural de Brumado e aos conhecimentos da vida no campo.
Na documentação, a receita é apresentada como uma herança transmitida entre gerações. Kelly associa sua realização à memória do pai de Dona Laci: repetir o preparo é também uma forma de manter esse vínculo familiar.
O trabalho exige dedicação, paciência e atenção às transformações dos ingredientes. A valorização do requeijão pela comunidade faz com que o alimento seja reconhecido pelo nome de quem o produz, aproximando ofício, identidade e memória.
O fogo, a mexedura e o ponto
O preparo registrado envolve a transformação do leite em massa, a separação do soro, o cozimento, a mexedura e a moldagem. O fogão a lenha e os utensílios de cozinha fazem parte das imagens e da descrição reunidas pela pesquisadora.
Mais do que uma sequência de etapas, esse fazer depende da experiência. A consistência, a textura, o brilho e a coloração ajudam a reconhecer as mudanças da massa e o momento de finalizar o trabalho.
Observar, acompanhar e praticar são formas de aprender esse conhecimento. O controle do fogo e a atenção ao tempo se articulam a escolhas construídas no cotidiano da produção e na convivência familiar.
Compartilhar o alimento e o conhecimento
O inventário relaciona a produção do requeijão ao sustento, à economia familiar e à circulação de alimentos no município. A mesa reúne o trabalho de quem produz e as experiências de moradores e visitantes que conhecem a iguaria.
A pesquisa aponta a importância de registrar as receitas, os modos de fazer e as histórias de seus detentores. A transmissão entre gerações e o reconhecimento de quem mantém a prática são caminhos para a continuidade desse patrimônio alimentar.
Valorizar esse saber significa considerar tanto o produto quanto as relações que o tornam possível: o trabalho rural, a aprendizagem, as memórias de família e os momentos de convivência em torno da comida.
Do preparo à mesa



Ficha técnica
- Bem cultural
- Saberes e fazeres da produção artesanal do requeijão moreno, conhecido como Requeijão de Laci
- Categoria
- Saberes · cultura alimentar
- Território
- Serra Azul de Minas, Minas Gerais
- Pesquisa e fotografias
- Kelly Nairana Gonçalves Sabino
- Detentora do saber
- Laci Marçal Botelho Silva (Dona Laci)
- Período da pesquisa
- 22 de setembro a 5 de outubro de 2026
- Registros fotográficos
- Setembro de 2026, conforme os créditos do documento
Fontes deste inventário
- Inventário Cultural Participativo — Saberes e fazeres da culinária tradicional local: o requeijão moreno, de Kelly Nairana Gonçalves Sabino, 2026.
- Ficha de saberes, roteiro de entrevista e registros sobre Dona Laci incluídos no documento.
- Fotografias creditadas a Kelly N. G. Sabino, setembro de 2026, reproduzidas das páginas 10, 14, 16 e 17.
Apresentação organizada a partir da documentação produzida na formação do projeto. Os relatos refletem o período da pesquisa e poderão receber complementações e revisões.
