A cata das fulor
Na Comunidade Quilombola de Capivari, no município do Serro, a cata das flores sempre-vivas reúne conhecimento do território, trabalho e memória familiar. Também chamada de “cata das fulor”, a prática é apresentada na pesquisa de Makcilene Viviane Nascimento Cunha por meio dos relatos de Leoni do Nascimento de Jesus, Fábio da Cunha e Sebastiana da Cunha.
Conhecer os campos, reconhecer as flores e acompanhar os períodos de floração são partes desse saber. Depois da coleta, há o trabalho de separar, organizar, amarrar e preparar as flores para a comercialização e para a formação de buquês.
O inventário aproxima essas atividades das histórias de quem aprendeu acompanhando os pais e os mais velhos. A relação com a paisagem também é uma relação de pertencimento e de cuidado com os lugares onde a vida da comunidade acontece.
Três vozes, saberes que se encontram
Leoni relata mais de cinquenta anos de experiência na cata, aprendida desde criança com seus pais. Também lembra de acompanhar Sebastiana da Cunha e de observar as pessoas mais velhas para reconhecer as flores e o momento da coleta.
Em sua memória, a venda das sempre-vivas envolvia compradores da comunidade e caminhoneiros que levavam as flores para outras cidades, principalmente Diamantina. Ela destaca a importância desse comércio para as famílias e a necessidade de transmitir o conhecimento aos jovens.
Fábio conta que começou a acompanhar a família no campo ainda criança. Cita a mãe, Dona Sebastiana, o pai e os bisavós como referências de aprendizagem.
Seu relato reúne o reconhecimento das flores, dos lugares onde nascem e das formas de cuidado aprendidas na convivência. Conversar com os mais novos e compartilhar o que recebeu da família aparecem como maneiras de manter o saber presente.
Sebastiana também recorda ter aprendido com os pais, observando e ajudando no trabalho do campo desde pequena. Sua experiência permite compreender como os ensinamentos circulavam dentro das famílias.
Nas entrevistas reunidas por Makcilene, os três participantes associam a continuidade das sempre-vivas à atenção às plantas e à transmissão dos conhecimentos entre gerações.
Os campos e o tempo das flores
A pesquisa registra nomes conhecidos pelos apanhadores, como espeta-nariz, estrelão, botão-branco e botão-vassourinha, além das denominações “pé liso” e “pé de ouro”. Esse repertório expressa formas locais de reconhecer e diferenciar as flores.
O documento apresenta referências distintas para o período da cata: em uma descrição geral, menciona fevereiro e março; no relato de Leoni, há uma primeira colheita em janeiro e outra de março a maio. As memórias mostram que os períodos variam e que observar a floração é parte do conhecimento.
Nos depoimentos, o cuidado em preservar o pé da planta, chamado de “sapata”, recebe destaque. Mais do que uma tarefa isolada, a coleta é descrita como uma relação construída ao longo do tempo com os campos, os caminhos e os ciclos das flores.
Preparar, reunir e compartilhar
Depois da cata, as flores passam por etapas de seleção, organização e preparo. Sacos, cestos, recipientes e materiais para amarrar ajudam no transporte e na composição dos feixes e buquês.
O trabalho pode continuar nas casas e em outros espaços da comunidade. Ao lado do preparo para a venda, acontecem conversas, histórias e ensinamentos que fazem parte da aprendizagem.
A comercialização representa uma possibilidade de renda para as famílias, enquanto a circulação das flores também torna visíveis os conhecimentos de seus apanhadores. A pesquisa registra, entre esses encontros, a participação de Leoni na primeira Feira de Troca de Saberes de Capivari.
Cuidar dos campos, valorizar quem sabe
Leoni relata que as flores se tornaram mais difíceis de encontrar e que os deslocamentos para a coleta ficaram mais longos. O inventário registra essas percepções como parte das transformações vividas pelos apanhadores.
A preservação dos campos, as condições de acesso ao território e a valorização de quem detém o conhecimento aparecem como questões para a continuidade da prática. O documento também recomenda registrar histórias, promover trocas entre gerações e construir ações de cuidado com a participação dos moradores.
Para Makcilene, a cata não se separa dos lugares, das flores e das pessoas. Ouvir os apanhadores e reconhecer suas experiências contribui para que esse saber continue fazendo parte da memória e da vida de Capivari.
Flores e conhecimentos em circulação



Ficha técnica
- Bem cultural
- Cata das flores sempre-vivas, também chamada de cata das fulor
- Categoria
- Saberes
- Território
- Comunidade Quilombola de Capivari, Serro, Minas Gerais
- Pesquisa
- Makcilene Viviane Nascimento Cunha
- Participantes
- Leoni do Nascimento de Jesus, Fábio da Cunha e Sebastiana da Cunha
- Período da pesquisa
- 25 de setembro a 5 de outubro de 2026
- Fotografias
- Makcilene Viviane Nascimento Cunha; Jéssica Calama Maurício, conforme os créditos do relatório de imagens
- Datas das imagens
- 25/02/2026 e 31/05/2026; registro de Sebastiana sem data identificada
Fontes deste inventário
- Inventário Cultural Participativo — A cata das flores sempre-vivas na Comunidade Quilombola de Capivari, de Makcilene Viviane Nascimento Cunha, 2026.
- Ficha de Saberes e entrevistas com Leoni do Nascimento de Jesus, Sebastiana da Cunha e Fábio da Cunha, reunidas no documento.
- Relatório de imagens e fotografias incluídos no inventário.
Apresentação organizada a partir da documentação produzida na formação do projeto. Os relatos refletem as experiências registradas e poderão receber complementações e revisões.
