A festa que ocupa as ruas
A Marujada de São Gonçalo do Rio Preto integra a festa de Nossa Senhora do Rosário e São Gonçalo, conhecida como festa de agosto. Cantos, danças, instrumentos, bandeiras e personagens percorrem as ruas e aproximam devoção, memória e convivência.
A pesquisa de Rayne Beatriz Severiano Silva, SolRah, e Helem Catarina Severiano acompanha essa celebração no Alto Jequitinhonha. Os relatos de participantes mostram uma prática construída por pessoas que assumem funções, organizam os encontros e transmitem conhecimentos na experiência da festa.
Uma travessia guardada na memória
José Raimundo de Almeida, conhecido como Nonô de Delino, conta uma narrativa que ouviu de João de Anjo: pessoas escravizadas atravessavam o mar em uma embarcação frágil e, diante do perigo, fizeram uma promessa a Nossa Senhora do Rosário. Uma luz teria indicado a saída, permitindo que chegassem à terra.
Na narrativa, a dança e a coroação de uma família expressam o cumprimento dessa promessa. O relato é apresentado aqui como memória oral transmitida entre participantes, uma maneira de contar os sentidos da celebração.
As entrevistas aproximam lembranças de antigos integrantes e experiências de quem participa hoje. Cada voz ajuda a compreender os vínculos entre a festa, as famílias e a cidade.
Funções que dão forma ao cortejo
A documentação distingue a Marujada, com referências ao universo das embarcações, e o reinado, com seus personagens reais. Patrão, contramestre, piloto, guia, contraguia, caixeiros, embaixadores, guardas e calafatinhos compõem a organização descrita pelas pesquisadoras.
Rei e rainha, prior e priora, príncipe e princesa, conde e condessa fazem parte do reinado. A passagem das funções aos próximos festeiros renova compromissos e liga uma edição da festa à seguinte.
As roupas ajudam a reconhecer os personagens: peças brancas, detalhes vermelhos e azuis, faixas, fitas e espelhos aparecem nos registros. Os calafatinhos usam chapéus de palha enfeitados com fitas. A bandeira e os instrumentos acompanham os deslocamentos e os momentos de encontro.
O trabalho coletivo por trás da festa
Ensaios e preparativos antecedem as alvoradas, os cortejos, as missas, o levantamento do mastro, as embaixadas e a coroação. A programação descrita na pesquisa reúne momentos de devoção, música, dança e entrega do reinado seguinte.
As refeições também fazem parte da celebração. O almoço oferecido pelo rei e pela rainha, a farofa preparada por outros festeiros e os doces articulam acolhimento, trabalho e partilha. Cozinhar e servir aproximam participantes, famílias e visitantes.
Segundo a documentação, o grupo não dispõe de sede permanente e utiliza espaços cedidos para a organização da festa. Doações e colaboração da comunidade ajudam a sustentar sua realização.
As pesquisadoras observam a presença de jovens e chamam atenção para a participação das crianças na função de calafatinhos. Valorizar a aprendizagem, registrar as memórias e apoiar as condições de realização aparecem como caminhos para a continuidade da Marujada.
Imagens da festa de agosto




Ficha técnica
- Bem cultural
- Marujada de São Gonçalo do Rio Preto
- Categoria
- Celebrações · música e dança
- Território
- São Gonçalo do Rio Preto, Minas Gerais
- Pesquisa
- Rayne Beatriz Severiano Silva (SolRah) e Helem Catarina Severiano
- Registros fotográficos
- SolRah e Helem Catarina · 15, 16 e 17 de agosto de 2026, conforme relatório
- Participantes ouvidos
- José Raimundo de Almeida (Nonô de Delino), Aparecida Margarida de Sá Severiano, José Maria Severiano, Gonçalo Aparecido da Silva (Aparecido) e Izanete Jeremias Severiano (Jeremias)
Fontes deste inventário
- Ficha de inventário da Marujada, de Rayne Beatriz Severiano Silva (SolRah) e Helem Catarina Severiano, com entrevistas e relatório de imagens.
- Memórias dos participantes identificados na documentação.
- Referência bibliográfica indicada pelas pesquisadoras: Marujada: Navegando pelas ruas de Rio Preto, Alexandre Magno Guimarães Moreira, Rio de Janeiro, 1999.
Apresentação organizada a partir da documentação produzida na formação do projeto. Os relatos refletem o período da pesquisa e poderão receber complementações e revisões.
