← Voltar ao acervo de inventáriosSaberes · cata das flores · Capivari · Serro · MG

Cata das sempre-vivas
de Capivari

Conhecer os campos, reconhecer as flores e aprender com os mais velhos: memórias de trabalho e pertencimento na Comunidade Quilombola de Capivari.

Fábio da Cunha no campo carregando um feixe de flores sempre-vivas
Fábio da Cunha durante a cata das sempre-vivas. Fotografia: Makcilene Viviane Nascimento Cunha, 25/02/2026.
Pesquisa
Makcilene Viviane Nascimento Cunha
Território
Comunidade Quilombola de Capivari · Serro, MG
Registro
Inventário participativo · 25/09 a 05/10/2026
O saber inventariado

A cata das fulor

Na Comunidade Quilombola de Capivari, no município do Serro, a cata das flores sempre-vivas reúne conhecimento do território, trabalho e memória familiar. Também chamada de “cata das fulor”, a prática é apresentada na pesquisa de Makcilene Viviane Nascimento Cunha por meio dos relatos de Leoni do Nascimento de Jesus, Fábio da Cunha e Sebastiana da Cunha.

Conhecer os campos, reconhecer as flores e acompanhar os períodos de floração são partes desse saber. Depois da coleta, há o trabalho de separar, organizar, amarrar e preparar as flores para a comercialização e para a formação de buquês.

O inventário aproxima essas atividades das histórias de quem aprendeu acompanhando os pais e os mais velhos. A relação com a paisagem também é uma relação de pertencimento e de cuidado com os lugares onde a vida da comunidade acontece.

Trajetórias e memórias

Três vozes, saberes que se encontram

Leoni do Nascimento de JesusApanhadora de sempre-vivas

Leoni relata mais de cinquenta anos de experiência na cata, aprendida desde criança com seus pais. Também lembra de acompanhar Sebastiana da Cunha e de observar as pessoas mais velhas para reconhecer as flores e o momento da coleta.

Em sua memória, a venda das sempre-vivas envolvia compradores da comunidade e caminhoneiros que levavam as flores para outras cidades, principalmente Diamantina. Ela destaca a importância desse comércio para as famílias e a necessidade de transmitir o conhecimento aos jovens.

Fábio da CunhaApanhador e detentor do saber

Fábio conta que começou a acompanhar a família no campo ainda criança. Cita a mãe, Dona Sebastiana, o pai e os bisavós como referências de aprendizagem.

Seu relato reúne o reconhecimento das flores, dos lugares onde nascem e das formas de cuidado aprendidas na convivência. Conversar com os mais novos e compartilhar o que recebeu da família aparecem como maneiras de manter o saber presente.

Sebastiana da CunhaGuardiã de memórias e conhecimentos de Capivari

Sebastiana também recorda ter aprendido com os pais, observando e ajudando no trabalho do campo desde pequena. Sua experiência permite compreender como os ensinamentos circulavam dentro das famílias.

Nas entrevistas reunidas por Makcilene, os três participantes associam a continuidade das sempre-vivas à atenção às plantas e à transmissão dos conhecimentos entre gerações.

Conhecer e observar

Os campos e o tempo das flores

A pesquisa registra nomes conhecidos pelos apanhadores, como espeta-nariz, estrelão, botão-branco e botão-vassourinha, além das denominações “pé liso” e “pé de ouro”. Esse repertório expressa formas locais de reconhecer e diferenciar as flores.

O documento apresenta referências distintas para o período da cata: em uma descrição geral, menciona fevereiro e março; no relato de Leoni, há uma primeira colheita em janeiro e outra de março a maio. As memórias mostram que os períodos variam e que observar a floração é parte do conhecimento.

Nos depoimentos, o cuidado em preservar o pé da planta, chamado de “sapata”, recebe destaque. Mais do que uma tarefa isolada, a coleta é descrita como uma relação construída ao longo do tempo com os campos, os caminhos e os ciclos das flores.

Da cata à circulação

Preparar, reunir e compartilhar

Depois da cata, as flores passam por etapas de seleção, organização e preparo. Sacos, cestos, recipientes e materiais para amarrar ajudam no transporte e na composição dos feixes e buquês.

O trabalho pode continuar nas casas e em outros espaços da comunidade. Ao lado do preparo para a venda, acontecem conversas, histórias e ensinamentos que fazem parte da aprendizagem.

A comercialização representa uma possibilidade de renda para as famílias, enquanto a circulação das flores também torna visíveis os conhecimentos de seus apanhadores. A pesquisa registra, entre esses encontros, a participação de Leoni na primeira Feira de Troca de Saberes de Capivari.

Território e transmissão

Cuidar dos campos, valorizar quem sabe

Leoni relata que as flores se tornaram mais difíceis de encontrar e que os deslocamentos para a coleta ficaram mais longos. O inventário registra essas percepções como parte das transformações vividas pelos apanhadores.

A preservação dos campos, as condições de acesso ao território e a valorização de quem detém o conhecimento aparecem como questões para a continuidade da prática. O documento também recomenda registrar histórias, promover trocas entre gerações e construir ações de cuidado com a participação dos moradores.

Para Makcilene, a cata não se separa dos lugares, das flores e das pessoas. Ouvir os apanhadores e reconhecer suas experiências contribui para que esse saber continue fazendo parte da memória e da vida de Capivari.

Pessoas e práticas

Flores e conhecimentos em circulação

Sobre este registro

Ficha técnica

Bem cultural
Cata das flores sempre-vivas, também chamada de cata das fulor
Categoria
Saberes
Território
Comunidade Quilombola de Capivari, Serro, Minas Gerais
Pesquisa
Makcilene Viviane Nascimento Cunha
Participantes
Leoni do Nascimento de Jesus, Fábio da Cunha e Sebastiana da Cunha
Período da pesquisa
25 de setembro a 5 de outubro de 2026
Fotografias
Makcilene Viviane Nascimento Cunha; Jéssica Calama Maurício, conforme os créditos do relatório de imagens
Datas das imagens
25/02/2026 e 31/05/2026; registro de Sebastiana sem data identificada

Fontes deste inventário

  • Inventário Cultural Participativo — A cata das flores sempre-vivas na Comunidade Quilombola de Capivari, de Makcilene Viviane Nascimento Cunha, 2026.
  • Ficha de Saberes e entrevistas com Leoni do Nascimento de Jesus, Sebastiana da Cunha e Fábio da Cunha, reunidas no documento.
  • Relatório de imagens e fotografias incluídos no inventário.

Apresentação organizada a partir da documentação produzida na formação do projeto. Os relatos refletem as experiências registradas e poderão receber complementações e revisões.