Memória, fé e acolhimento
Os saberes das benzedeiras de Santo Antônio do Itambé se fazem presentes nas histórias das famílias, nas conversas e na confiança construída entre moradores. Orações, gestos, plantas e objetos integram uma prática transmitida sobretudo pela oralidade e pela convivência.
A pesquisa de Ágatha Iasmim Pereira Batista apresenta esse universo a partir da trajetória de Odete dos Santos Paula, Dona Odete. Entrevistada em 17 de setembro de 2026, ela reúne lembranças de aprendizagem, acolhimento e relações com pessoas que mantiveram esses conhecimentos no município.
O inventário tem como referência inicial essa experiência de vida. A proposta é ampliar a escuta de outras benzedeiras, familiares e moradores, construindo um registro participativo das memórias do território.
Dona Odete e a aprendizagem em família
Natural de Capivari e moradora de Santo Antônio do Itambé, Dona Odete associa sua história à família, ao trabalho e aos ensinamentos das pessoas mais velhas. Segundo seu relato, começou a aprender a benzeção por volta dos quinze anos, principalmente com a mãe e as avós.
O aprendizado aconteceu aos poucos: observar, acompanhar e ouvir faziam parte da formação. A maneira de receber as pessoas e de tratar quem buscava uma palavra de conforto era tão importante quanto os elementos utilizados.
Ela conta que procurou transmitir o que podia ser compartilhado a filhas, sobrinhas, vizinhas e amigas. Interesse, respeito e responsabilidade aparecem em sua fala como condições para dar continuidade à tradição.
Lugares que guardam relações
Na memória de Dona Odete, a casa da benzedeira também é lugar de encontro, oração e escuta. Pessoas de diferentes idades procuravam alguém em quem confiavam, muitas vezes atravessando distâncias entre comunidades.
Quintais, hortas e arredores das comunidades guardam conhecimentos sobre plantas aprendidos com os familiares. O inventário menciona arruda, guiné, alecrim, hortelã e manjericão como referências dessa relação com a natureza, sem apresentar receitas ou indicações de tratamento.
Terços, rosários, imagens religiosas, ramos, panos e outros objetos fazem parte do universo recordado. Seu valor está ligado aos usos, às histórias e aos significados atribuídos por quem os conserva.
A pesquisa trata a benzeção como referência cultural de fé e acolhimento. Dona Odete também distingue esses saberes do atendimento profissional de saúde, que não deve ser substituído pela prática.
Registrar com quem guarda o saber
Dona Odete deseja que a história das benzedeiras antigas seja lembrada. A perda de pessoas que transmitiram conhecimentos principalmente pela fala pode interromper vínculos e deixar lacunas na memória comunitária.
A entrevista aponta dificuldades de transmissão e a necessidade de aproximar os jovens dessas trajetórias. Essa é uma percepção registrada na pesquisa, que convida a novas conversas e à participação das famílias.
Rodas de memória, entrevistas, atividades nas escolas e registros de histórias e objetos estão entre as propostas de salvaguarda do inventário. São possibilidades para desenvolver com a comunidade, respeitando as escolhas das detentoras sobre o que pode ser divulgado.
Preservar também envolve reconhecer os limites do registro público. A continuidade desse patrimônio depende das pessoas, da confiança e das oportunidades de encontro entre quem conhece a tradição e quem deseja aprender.
Um encontro com Dona Odete
Ficha técnica
- Bem cultural
- Saberes e práticas das benzedeiras de Santo Antônio do Itambé
- Categoria
- Saberes e fazeres · modos de vida · tradição oral
- Território
- Santo Antônio do Itambé e suas comunidades rurais, Minas Gerais
- Pesquisa e entrevista
- Ágatha Iasmim Pereira Batista
- Referência entrevistada
- Odete dos Santos Paula (Dona Odete)
- Data da entrevista
- 17 de setembro de 2026
- Fotografias
- Acervo da pesquisa de Ágatha Iasmim Pereira Batista; autoria individual e datas de captura não indicadas
Fontes deste inventário
- Inventário Cultural Participativo — Saberes e Práticas das Benzedeiras de Santo Antônio do Itambé – MG, Ágatha Iasmim Pereira Batista, 2026.
- Entrevista com Dona Odete — Guardiã da tradição, realizada em 17 de setembro de 2026 e apresentada na documentação da pesquisadora.
- Dois registros fotográficos reunidos nos materiais da pesquisa.
Apresentação organizada a partir da documentação produzida na formação do projeto. Os relatos refletem o período da pesquisa e poderão receber complementações e revisões.

